Estudos interdisciplinares da música popular

 

Estudos aprofundados sobre os diversos gêneros musicais podem revelar muito sobre a cultura, história e modo de vida de uma sociedade. Nesse contexto, a música erudita é objeto de inúmeros estudos na academia, nas escolas de música e conservatórios, já a música popular, em toda sua riqueza e pluralidade, não tem recebido a mesma atenção.  

Motivado pelo interesse pessoal e tendo em vista a concepção de que a universidade deve e pode abrir espaço para o debate a respeito da música popular, o professor da Escola de Ciências e Tecnologia, Lauro Meller, vem desenvolvendo, desde 2011, dois projetos na área de estudos da música popular, o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Música Popular (GEIMP) e a Revista Brasileira de Estudos da Canção (RBEC).

O GEIMP é um projeto de pesquisa que reúne professores e alunos de graduação e de pós-graduação para sessões de discussão e de textos, exibição de documentários e audição de gravações, tendo como denominador comum a Música Popular, qualquer que seja sua origem ou época: blues, samba, soul, bolero, jazz, hip-hop, chanson, pop, reggae, choro, rock e etc.

Já a RBEC, segundo Lauro, surgiu de uma forma despretensiosa como um estímulo para os bolsistas e os participantes do projeto, como um espaço em que eles pudessem publicar seus artigos.  Num segundo momento, ele convidou professores da UFRN e de outras universidades para compor o corpo editorial e se surpreendeu com o interesse de professores de outros estados e de outros países em colaborar.

 “Num país com a tradição de música popular que a gente tem, e para além das fronteiras do Brasil, você tem outras tradições musicais de música popular muito interessante. Eu acho que está mais do que na hora de nós termos espaços de discussão, porque certamente há pessoas interessadas em discutir isso”. Afirmou o professor sobre a importância de debater o tema.

Ele, ainda, destaca o pouco interesse da academia em estudar gêneros populares:

“Não existe um lugar específico para se estudar música popular, tem gente de letras, tem gente de história, tem gente de filosofia que se interessam. Raramente as escolas de música se preocupam, o que foi uma surpresa desagradável para mim. Eu pensei que o pessoal das escolas de música se interessassem, mas, curiosamente, não é isso o que acontece. Eles realmente são mais focados em música erudita.”

Formado em letras, Lauro sempre teve vontade de estudar a relação entre letra e música nas canções populares, sua tese de mestrado foi sobre os discos Sgt. Pepper's Lonely Heart, dos Beatles, e Tropicália ou Panis et Circencis, do grupo tropicalista, já o tema de sua tese de doutorado, foi sobre a correlação da poesia literária e a canção popular brasileira.

Lauro defende que a música popular deve ser um terreno de estudos interdisciplinares, por acreditar que estudiosos de diversas áreas como música, letras, história, filosofia, matemática, entre outras, podem ter diferentes abordagens sobre a música. Melodia, letra, contexto histórico e social em que determinados gêneros se desenvolveram, são recortes sobre o tema que podem ser mais bem estudados por profissionais com diferentes habilidades, com os conhecimentos específicos, de suas respectivas áreas.

A Revista Brasileira de Estudos da Canção

Hoje, a RBEC publica artigos, com trabalhos de autores do Brasil e do exterior, além de trabalhos de bolsistas e ex-bolsistas, que foram orientados por Meller. A revista é um periódico semestral que tem cinco edições publicadas até agora, com artigos referentes a variadas expressões musicais, como explica Lauro:

 “A gente começou em 2012 com trabalhos bastante diversificados, o que eles têm em comum é tratarem de música popular, tanto música popular brasileira como música popular de expressão hispânica, anglo-americana, a chanson (canção) francesa, qualquer tipo de manifestação de musica popular é bem vinda, nas páginas da revista”.

 A revista busca estudar diferentes aspectos sobre movimentos da música popular, como fenômeno cultural e social, sem fazer juízos de valor de determinados segmentos musicais marginalizados. Como ressalta Lauro Meller:

“Se você mandar um artigo sobre Beethoven, vai ser rejeitado, se você mandar um artigo sobre Shakira vai ser aceito se for bem escrito, bem fundamentado. Só pra deixar bem claro que não é a questão de juízo de valor do objeto música popular. O que está valendo é a abordagem. A nossa intenção é abrir espaço de discussão para a música popular em todas as suas manifestações, mesmo aquelas que não gozem de prestígio, agora”.

A Definição de música popular adotada no GEIMP e na RBEC é o conceito cunhado pelo jornalista, critico e pesquisador musical brasileiro José Ramos Tinhorão, que distingue música popular e música folclórica. Segundo Tinhorão, a música folclórica é passada de geração em geração oralmente, não existe um autor muito bem definido, as pessoas vão repetindo , reproduzindo e memorizando e modificando e sem fins de consumo.  Já a musica popular tem um autor definido, seja compositor ou interprete e época em que foi produzida e gravada e foi consumida através do rádio ou dos discos (LP, CD, etc.).

O corpo editorial da RBEC é composto por Lauro Meller (presidente), Roberto Bozzetti, Mike Broken, Éverton Barbosa Correia, Jean Joubert Freitas Mendes, Agostinho Lima, Luiz Henrique Assis Garcia e Adalberto Paranhos.

O endereço do site da Revista Brasileira de Estudos da Canção é: http://www.rbec.ect.ufrn.br. No site estão contidas informações sobre a revista, corpo editorial, artigos publicados, normas para publicação.

Lauro Meller é Professor de Práticas em Leitura e Escrita em Português e Inglês na Escola de Ciências e Tecnologia da UFRN,  tem Doutorado em Letras (Literaturas de Língua Portuguesa), PUC-Minas, 2010. (Tese: "Poetas ou Cancionistas? Uma discussão sobre a canção popular brasileira em sua interface com a poesia da série literária”; Mestrado em Literatura, UFSC, 1998 (Dissertação: "Sugar Cane Fields Forever: Carnavalização, Sgt. Pepper's, Tropicalia"; Licenciado em Letras (Inglês-Português), UFPB, 1996.  É Músico afiliado à OMB (Baixista, Guitarrista, Violonista) e à IASPM (International Association for the Study of Popular Music).

 

ComC&T
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